Bono ataca a pirataria

Bom ano para todos.

Fazendo menção a Robin Hood, Bono Vox criticou a pirataria ontem, no NY Times. Na coluna ele alerta a indústria de vídeo alegando que em pouco tempo será muito rápido baixar temporadas inteiras de séries, já que a conexão de internet será bem rápida e eficiente. Bono também fala que nos Estados Unidos há uma maneira para prevenir a pornografia infantil e que isso deveria ser utilizado para controlar as músicas, punindo os culpados por piratear conteúdo.

Até aí tudo certo, todo mundo critica a pirataria, até quem cresceu com a pirataria a critica. O problema são os argumentos utilizados. Alguém tem alguma sugestão para o motivo dos grandes artistas repudiarem a distribuição livre? É simples, se a distribuição é livre, eles não ganham um tostão pelo conteúdo digital. Duvido muito que tudo isso seja um ofício de messias para salvar a indústria, tampouco é uma caridade para os novos artistas. Aliás, Bono fala que os novos artistas são os menos beneficiados nessa história toda, pois não têm dinheiro para sustentar uma carreira e gravar um álbum.

Vamos ao fato: as pessoas que baixam música pirata não estão preocupadas com a qualidade sonora, pois se estivessem não baixariam nada em  MP3 e nem ouviriam no Ipod (tenho certeza que pouca gente baixa algo em FLAC). Se qualidade fosse a questão, então provavelmente essas pessoas seriam aqueles geeks que cheiram disco de vinil em cada sebo que passam. Se a qualidade não é tanto o que importa, o custo de produção teoricamente pode cair. Não é necessário gastar 10 milhões (morra Axl), se metade das vicissitudes sonoras são perdidas na hora da compressão para MP3.

Portanto essa é a beleza da internet, enquanto as pessoas querem mais e mais, conteúdos e conteúdos, há uma série de ferramentas democratizadoras que capacitam qualquer um a fazer música. Obrigado Apple e o seu lindo Garage Band, obrigado Boss e o BR-1600 e obrigado M-Audio por todas as suas interfaces, agora eu posso ser um mini rock-star. Aliás, a internet inclusive me faz ser ouvido por alguém em algum lugar do mundo. Obrigado Arquiteto, por criar a internet.

O mundo precisa entender que a Creative Commons é inteligente pra caramba. Esse negócio de super pop star é um paradigma velho, precisa ser quebrado, o ofício do artista não precisa ser uma anomalia social. Fiquei sabendo que o Radiohead vai gravar um novo álbum. Será que eu escolherei quanto eu quero pagar? Se assim for, será $0,00 novamente. Desculpe Tom, te devolvo a grana no show, novamente.

A distribuição livre ou, se não for consentida, a pirataria, não vai evitar que as pessoas paguem por conteúdo. Os blockbusters continuarão existindo porque adoramos blockbusters quando estes são esteticamente bem definidos, só que eles coexistirão com coisas menores, dividindo mais ou menos o mesmo patamar de alcance, porém com maior visibilidade e ganhando bem mais dinheiro. Essa nova ordem certamente evitará que os sangue-sugas tornem a música um mero produto e desprezem todo o seu conteúdo intelectual. Esse papo ainda dá pano pra manga, continuamos depois durante o ano.

Dia desses eu vi um vídeo ao vivo do U2. Achei o som deles bem artificial, muito efeito (morra The Edge), muita pasteurização, nem o discurso do Bono me emociona. Acho que isso é bem indicial do que o irlandês disse ontem, pois certamente ele considera suas apresentações ao vivo, uma extensão do produto que ele confecciona em estúdio, o que o torna caolho para o fato de que a música, por mais que seja bárbara nos auto-falantes de casa, foi feita para ser tocada ao ar livre e, neste caso, ele está sendo muito bem pago e muito bem ajudado por fãs que ouviram o último cd pelo iTunes ou música pirateada. Não sou a favor da indústria pirateira, mas acho que o necessário é a adaptação às mudanças que estão acontecendo e não uma atitude reacionária e datada na segunda década do novo milênio.

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Autor: Rico T.

Rico T. é um brasileiro, trabalhador.

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