Os Sonhos na Mostra
outubro 30, 2008
Este ano resolvi não ler nada sobre a Mostra, apenas com uma programação na mochila com os títulos de filmes circulados, filmes que continham títulos estranhos e desconhecidos e diretores “não-cults”, vi dois filmes que abordam o tema “sonhar para ter uma vida melhor”.
Indicado por um amigo (o que é contraditório à minha metodologia), o primeiro filme que fui assistir foi “O BANHEIRO DO PAPA”, co-dirigido por CÉSAR CHARLONE conhecido por ser o diretor de fotografia dos filmes de Fernando Meirelles. A sessão foi no vão-livre do MASP com água mineral e pipoca de graça, o problema foi o temporal que fez com que muitas pessoas arrastassem as cadeiras para se esconderem, os trovões se misturavam a sonoplastia do filme.
Neste filme um contrabandista resolve aproveitar a ida do papa João Paulo II ao Uruguai alugando o banheiro que ele irá construir no seu quintal, durante todo o filme ele vai fazendo acordos com os contrabandistas para conseguir o dinheiro para comprar os materiais para construir o banheiro e poder melhorar de vida e para pagar um curso de jornalismo para a filha que quer ser locutora. Um filme que mostra a religiosidade do povo latino, junto com a ganância de ganhar dinheiro para melhorar de vida e conquistar os sonhos de um povo simples.
Tentando ver filmes que provavelmente não entraram no circuito paulista, fui até a FAAP para quebrar um tabu, depois da tentativa frustrada de ver o filme do GAEL e sua seqüente palestra, de não conseguir assistir “SUKYAKI WESTERN DJANGO” que ficou preso na alfândega, tudo no ano passado. Na FAAP não falta mulher bonita com a pele perfeita que até parecem artificiais, não se encontra um defeito, me sinto um figurante numa comédia romântica hollywoodiana. Insistentemente consegui quebrar o tabu e peguei o ingresso para assistir “A CANÇÃO DOS PARDAIS” de Majid Majidi, falado em Farsi e com legendas eletrônicas em português.
A CANÇÃO DOS PARDAIS é um filme saudita que tem como tema principal “Sonhos”, um trabalhador de um criadouro de avestruzes vive com sua esposa e três filhos numa vila na área rural da Arábia.
Seus dois filhos mais jovens vivem brigando como dois irmãos comuns do mundo inteiro, sua filha mais velha tem problemas auditivos, ela está crescendo e logo deve se casar, depois de deixar um avestruz fugir, ele é despedido, vai até Teerã e por acaso, arruma um outro emprego, como mototaxista, apartir deste momento se desenrola engraçadas estórias em seu trabalho e em sua família intercalando com cenas tristes e polêmicas. O pai da família sofre um acidente e a vida acaba mudando.
Uma estória bem contada e bem filmada contando um drama regional num assunto universal, se sair no circuito, é um ótimo filme para se ver.
Espero ver alguns filmes que me impressionem e me façam pensar como estes dois, vou procurar outros filmes desconhecidos e crescer ainda mais a minha lista de bons filmes que talvez eu não consiga uma cópia tão cedo.
Balanço do 3˚ e 4˚ dias da Mostra
outubro 23, 2008
Pois é. A vida é complicada. O Tada! não paga as contas de ninguém e é realmente difícil para um free lancer como eu recusar um trabalho. Eu juro que tentei, mas não consegui. E acontece que a minha média de filmes vistos diminuiu bastante (obviamente). Apesar de eu estar com quatro ingressos para o terceiro dia, só assisti a um, o bom “Três Dias de Chuva”
Fui no Cine Ig, com a companhia de mi madre. Eu estava realmente mal humorado com o trabalho e com o meu pouco tempo de sono, o que me atrapalhou um pouco em uma análise objetiva do que eu estava assistindo.
Trata-se de um filme sobre pessoas sós, que tentam, de todas as formas, ajeitar as próprias vidas. Saí da sala irritado com os personagens. Pensei, refleti (é bom ter algum tempo pra pensar antes de escrever), e conclui que é sim um bom filme. Mas um bom filme para momentos de reflexão.
No quarto dia, mais trabalho e, novamente, apenas um filme, para a minha tristeza.
Cheguei no Unibanco Arteplex às 21h. Encontrei o Pablo Villaça, amigo mineiro de longa data e bom crítico de cinema. Conversamos um pouco e entramos no filme. “O Agente”.
O Pablo me perguntou qual foi minha motivação pra escolher o filme. Fui sincero: “escolhi pelo país”. Eu tenho observado que o cinema britânico está em uma onda de crescimento muito interessante. Desde filmes como Harry Potter até o Jardineiro Fiel, passando por produções 100% britânicas de muita qualidade. Isso divertiu o Pablo, que nunca pensou em usar um critério desses pra escolher um filme na Mostra.
E quando começou, a tortura. Não bastasse a exibição estar um horror, o que estava sendo exibido era pior ainda. Foi com muito esforço que permaneci na sala mesmo enquanto na tela eram exibidas imagens ruins, mal feitas. Era pior que um filme amador. Era um filme amador realmente ruim. Havia, porém, algo de interessante no roteiro. A discussão sobre “quem cria o bom autor literário? A publicidade ou o texto?” passou por momentos interessantes, sem deixar, para nossa tristeza, de ficar na linha mais raza da discussão. Todos os bons argumentos não foram corretamente desenvolvidos - o que é uma pena. Um filme que poderia ser só ruim ficou realmente péssimo.
Ontem assisti ao primeiro filme dirigido e escrito por Charlie Kaufman, o mesmo cara que escreveu o roteiro de “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, “Quero Ser John Malkovich” e “Adaptção”. Ele é, portanto, o roteiro mais brilhante da Hollywood atual. Mas o filme dele merece um texto longo e analítico demais, que só escreverei mais tarde porque vou entrar em uma reunião já já.
Balanço do segundo dia da Mostra
outubro 19, 2008
Ok, Fui assistir “La Rabia” e quer saber? Tive que sair no meio da sessão. Não que o filme fosse ruim, não parecia, mas era um desses que não se importam em mostrar um porco sendo abatido com uma faca na jugular e sangrando até morrer. E não é nem falta de estômago pra isso, é só algo que realmente não me agrada. Se você não se importar, assista ao filme e diga pra gente o que achou. Parecia bom, afora as cenas dos bichos sendo mortos.
Como saí no comecinho, fiquei perambulando para esperar meu próximo filme, que seria “Of all the things”. Mas aí aconteceu algo que fez valer realmente a pena ter saído do filme dos bichinhos mortos.
Fui falar com a Michelle, a monitora mais bonita da organização da Mostra. Fico meio vidrado nela, sério. Tentei comprar uma bolsa da mostra, mas não tinha mais. E quando viu minha cara de desapontamento a linda Michelle me ofereceu um ingressso cortesia para um filme que estava pra começar em cinco minutos. Juro que não sei se ela me deu o ingresso por ir com a minha cara ou pra me dar um motivo pra ir pra longe dela, mas eu obviamente aceitei. Não me arrependi. “Máncora” é um co-produção Espanha - Peru, do diretor Ricardo de Montreuil, sobre três pessoas que resolvem ir viajar para a praia cujo nome dá título ao filme.
Com uma linguagem bem comum aos filmes latino americanos atuais, com pitadas de drogas, sexo, mas quase nehum rock`n roll, “Máncora” é um filme que merece ser assistido.
Logo em seguida fui assistir com dois amigos ao “Of all the Things”. E esse foi uma daqueles filmes que eu escolhi sem fazer a mínima idéia do que se tratava. Li o nome do diretor (Jody Lambert), achei um nome legal e resolvi assistir. Se trata de um documentário sobre Dennis Lambert, um compositor de aluguel que compôs muitos hits de sucesso nos anos 70/80 (teve mais de 75 músicas nas “100 + da Bilboard”) que desistiu da carreira após ter lançado seu primeiro disco solo. Porém, por algum motivo inimaginável, seu disco fez um sucesso incrível nas Filipinas. O mote do documentário é a turnê de superastro que ele vai fazer no país, com direito a entrevistas para TV, rádio, revistas, matérias em jornais.
O diretor, que estava presente, me disse ao final da sessão que após o filme Dennis Lambert (pai do diretor) também iniciou uma boa turnê dentro dos próprios Estados Unidos.
Lá pela metade tudo se torna meio chato, para ficar legal, para ficar chato. A verdade é que com 20 ou 30 minutos a menos o filme seria muito mais divertido. (e a música de Dennis, que soa incrivelmente ruim no início, acaba ficando realmente tolerável, para não dizer legal, mais para o final).
Em seguida fui para outro filme-surpresa. Procurei pela Michelle entre as sessões mas ela devia ter ido embora (ou estava se escondendo realmente bem de mim). O filme seguinte era “El Barco”, um dos suspenses mais interessantes que já assisti. Além de todo o lado puramente poético da obra (em um ou outro momento alguém diz frases como “esta pedra tem 10 mil anos, e mesmo assim você pode se abaixar e pegá-la em sua mão”), há ainda o clima de suspense, quase onipresente e nunca desinteressante. Altamente recomendável (apesar de a exibição digital estar uma merda). Coloca qualquer desses filminhos de pseudo-terror hollywoodianos no chinelo.
E para o último da noite, “Segurando as Pontas”. Esse eu sabia do que se tratava. O novo filme produzido por Jude Apatow. Sei que é raro alguém citar um produtor em uma resenha crítica, mas nesse caso isso é realmente importante. Apatow é um produtor da nova geração de Hollywood, que ironicamente remete aos antigos produtores, que mantinham um alto controle - criativo inclusive - sobre os filmes que estavam produzindo. Se você gostou de “Superbad - é hoje”, dirigido e produzido por Apatow, deverá gostar desse “Segurando as Pontas”. Nunca genial, mas sempre engraçado, o filme conta a história de um homem que é a única testemunha de um assassinato cometido pelo mais poderoso chefe do tráfico da cidade. Ele vai para seu revendedor de maconha pedir ajuda e os dois resolvem fugir juntos.
Correndo alto risco de ser acusado por apologia, fiquei com a clara sensação que Apatow quase pediu para que seus expectadores assistissem ao filme novamente, só que sobre o efeito da maconha. Logo nos minutos iniciais o protagonista diz “todo mundo fuma maconha. Ela faz o sexo melhor, faz os jogos melhores, faz até filmes ruins melhores”.
Apatow, mais uma vez, acertou a mão e fez mais uma comédia memorável.
Mas de uma forma ou de outra, fica a dica, não assista esse filme durante a Mostra. Entrará em cartaz em breve. Vá para aqueles filmes que nunca mais terá a chance de assistir na sua vida. Vá para o cinema oculto. Se estiver com medo de gastar seu dinheiro em um filme ruim, basta seguir o conselho de Apatow.
(ainda vou ser preso por escrever isso, então, para todos os efeitos, NÃO leve a sério o que eu disse sobre fumar maconha).
(Ou leve. Sei lá. Você decide).
(Não sei porque estou fazendo isso. Detesto textos que ficam dizendo “você” o tempo todo).
João Papa
Programação Mostra SP
outubro 16, 2008
32ª Mostra Internacional de Cinema dá carta branca a Wim Wenders, tem pré-estréia mundial de “Garapa”, de José Padilha, e exibe “Che” com a presença de Benício Del Toro
Além de retrospectivas de filmes de Ingmar Bergman e Kihachi Okamoto, a Mostra homenageia Hugh e exibe filmes inéditos no Brasil, como “Tulpan” e “Duska”
A 32ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, tradicional evento do calendário cinematográfico do país, que acontece entre 17 e 30 de outubro, traz neste ano uma seleção de 453 filmes de 76 países e mantém seu objetivo de contemplar a diversidade da produção cinematográfica atual, reunindo filmes de todas as partes do mundo que permitam uma visão aberta e pluralista da realidade e novas experiências estéticas.
A Mostra também traz à cidade obras de cineastas consagrados, seja na seção Perspectiva Internacional, seja em retrospectivas e apresentações especiais. Debates, palestras, exposições, shows e uma grande lista de convidados internacionais em São Paulo completam o programa.
Pré-estréia mundial de “Garapa”, de José Padilha
A Mostra exibirá em sessão especial a pré-estréia mundial de “Garapa”, de José Padilha. “Garapa” é o terceiro documentário longa-metragem do diretor de “Tropa de Elite”, que também assinou “Ônibus 174” e “Estamira”. O filme aborda a questão da fome no mundo a partir de uma perspectiva microscópica, ao se aproximar de quem convive com o problema. A pré-estréia do filme será seguida de debate, promovido em parceira com o jornal Folha de S. Paulo.
Carta Branca a Wim Wenders
A 32ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo dá Carta Branca ao premiado diretor alemão Wim Wenders, para apresentar sua própria seleção de filmes. Wim Wenders também será homenageado com o Prêmio Humanidade, concedido pela Mostra a grandes cineastas como Manoel de Oliveira, Eduardo Coutinho e Amos Gitai.
Com Carta Branca, Wenders indicou livremente uma relação de filmes que está incluída na programação do Festival. Em sua seleção de 15 títulos, Wenders contempla filmes de cineastas clássicos, como François Truffaut (com “A Sereia do Mississipi”), Jean-Luc Godard (com “O Pequeno Soldado”) e Yasujiro Ozu (com “A Rotina tem Seu Encanto” e “Fim de Verão”) e obras de novos diretores representativos do panorama atual –como Sarah Polley (com “Longe Dela”) e Robinson Savary, (com “Bye Bye Blackbird”).
Após a exibição de seu mais recente filme, “The Palermo Shooting”, em 21 de outubro, Wim Wenders comenta e justifica com a platéia os filmes de sua Carta Branca e sua nova realização. O cineasta estará em São Paulo entre os dias 20 e 22 de outubro, especialmente para participar da Mostra.
Exibição de “Che” com Benicio Del Toro
A 32ª Mostra cumpre seu papel de sinalizar as tendências do cinema mundial e traz a São Paulo importantes filmes inéditos no Brasil. Entre as novidades estão o longa de Steven Soderbergh, “Che”, estrelado por Benício Del Toro, que vem a São Paulo prestigiar a exibição do filme, que encerra a programação da Mostra. O filme terá sessões no dia 30, no Cine Bombril, e 31, no Cinesesc. Neste ano, Del Toro recebeu o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes por sua interpretação de Ernesto “Che” Guevara.
Filmes inéditos no Brasil
“Tulpan”, de Sergey Dvortsevoy, vencedor da mostra “Um Certo Olhar” do Festival de Cannes 2008, “Mil Anos de Orações”, de Wayne Wang, “Duska”, de Jos Stelling, “Horas de Verão”, de Olivier Assayas, “La Virgen Negra”, de Ignácio Castillo Cottin, “Veneno Cura”, de Raquel Freire, “Príncipe da Broadway”, de Sean Baker, “Oceano”, de Mikhail Kosyrev –Lambert, “Recurso Intangível Número 82”, de Emma Franz, “The Palermo Shooting”, de Wim Wendesr, “Revolução Revisitada”, de Hugh Hudson, “Fronteira”, de Rafael Conde, “Las Meninas”, de Ihor Podolchak e “Coyote”, de Brian Petersen, são mais algumas das várias atrações inéditas no Brasil que serão exibidas na 32ª edição da Mostra.
Homenagem a Ingmar Bergman
No ano em que Ingmar Bergman completaria 90 anos, a Mostra homenageia o cineasta com uma retrospectiva que privilegia filmes raros do início de sua carreira. Entre os títulos que farão parte da seleção estão “Crise” (1946), “Prisão” (1949), “Rumo à Alegria” (1950). Os filmes serão exibidos em cópias novas em 35 mm, produzidas com supervisão do Instituto Sueco de Filmes, órgão que difunde a cultura sueca no mundo. Frederik Gustafsson, do Instituto Sueco e especialista na obra de Ingmar Bergman, estará em São Paulo entre os dias 18 e 23 de outubro.
A Mostra também apresentará a exposição “Meus Encontros com Bergman”, uma seleção de fotografias em que o cineasta aparece nos bastidores de peças teatrais e filmagens. As fotos, tiradas entre as décadas de 50 e 80, são do sueco Ove Wallin. A exposição já passou por Estocolmo e Tóquio. Em São Paulo, as fotos ficarão expostas na Galeria do Conjunto Nacional.
Retrospectiva Kihachi Okamoto
A Mostra celebra o centenário da imigração japonesa com exibição da obra de Kihachi Okamoto (1924 – 2005), símbolo de uma era de ouro do cinema japonês construída quase anonimamente por talentos abnegados.
O autor ganhará uma retrospectiva composta por 14 de seus 39 títulos. Kihachi Okamoto, um dos pioneiros do novo cinema japonês, já foi comparado a Samuel Fuller, mas permaneceu pouco conhecido fora do Japão. O diretor, no entanto, influenciou cineastas ocidentais contemporâneos como Quentin Tarantino (“Kill Bill Vol. 1 e 2”) e Jim Jarmusch (“Ghost Dog: Matador Implacável”). Além de seus notáveis filmes de samurai (chambara movies) e de gângster, Okamoto realizou importantes filmes de guerra.
A Retrospectiva Okamoto apresenta-se em São Paulo graças às colaborações da Tokyo Filmex, Toho, The National Museum of Modern Art Tokyo, The Japan Foundation Film Library Tokyo, Fundação Japão de São Paulo, National Film Center Tokyo, Cinemateca Brasileira e a produtora Mineko Okamoto, viúva de Kihachi Okamoto. Mineko Okamoto estará em São Paulo entre 16 e 31 de outubro.





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